Atitude Jô expor a grande crise em que estamos mergulhando – 08/06/202

Jô noitada tocando alegremente um instrumento musical e a derrota de seu tempo e de costas para o monitor que foi flagrado numa partida. As imagens foram divulgadas no local. Meu colega Julio Gomes brilhantemente sóbrio os aspectos morais do envolvimento do episódio. Recomendo leitura.

Quero aqui de um outro aspecto, que é o que me parece estar falando da torcida bastante revoltada.

não há pessoas que, diante de um sentimento legítimo, como, tristeza e decepção, escolham reagir violentamente. É uma parte barulhenta da sociedade, e uma parte que tem se sensido mais livre para exercer sua delinquência porque um de seus representantes não está no posto mais alto do funcionalismo público nacional. Mas, apesar de barulhentos, eles não são a maioria.

A maioria é composta que hoje são exaustos

A maioria é feita por pessoas que hoje trabalham quinze horas por dia, sete dias por semana, para, no fim do mês, escolher quais boletos vão conseguir pagar e quais vão ter que deixar de pagar. Dentro dessa maioria, tem as almas que amam uma camisa de futebol e tiram alegria e prazer vendo seu tempo jogar.

Mas nem todos podem ver atualmente porque os jogos são exibidos num canal fechado que, por sua vez, fica dentro de um canal por assinatura. É preciso pagar duas vezes. Em campo, os ingressos, a cada dia mais caros, podem ser compradores por uma pessoa que não escolhe, no fim do mês, os boletos terão que deixar de pagar. Esse cidadão e essa cidadã já não veem seu tempo com a mesma regularidade de antes. Mas, ainda assim, ama aquela camisa.

O que eles esperam dessa hora? Que ele siga mobilizando alguns bons afetos, como alegria, prazer, regozijo. Esperam, também, comprometer-se a vestir a camisa amada. Tudo isso eu escrevi para chegar aqui: a crise é de compromisso.

A imagem de Jô de costas para o monitor sorrindo e cantando enquanto o tempo perdia foram vistas mesmo por aqueles que já não podem mais ver o jogo pela TV ou no estádio. E, de imediato, elas deflagram a ideia do descompromisso. Uma ideia do “danem-se” vocês. Não estou dizendo que Jô pense assim, estou avaliando o que a imagem faz brotar no sentimento do torcedor e da torcedora.

A impressão de que estão se danando para a gente é absolutamente legítimo e verdadeiro. Ela não diz respeito a Jô ou ao corinthians. Ela diz respeito a uma des-implicação política. Diga respeito a uma manifestação real e concreta que está em circulação pela sociedade e que, se encontrar em construção, vai se manifestar nas pequenas coisas do cotidiano – e não nas urnas, que é onde ela deveria ser.

A maioria da população brasileira não é politicamente. O povo não precisa de pesquisa para saber disso – embora haja muitas pesquisas que comprovam isso. O povo sente isso na pele todos os dias. Não compre mais em uma democracia representativa. Vivemos em uma democracia, como qualquer democracia, defendemos os interesses dos grandes empresários liberais que não são, nem nunca serão, os interesses do trabalhador.

Do que importa que a maioria quer taxação de grandes fortunas se ela não é boa para os grande empresário? Do que importa que a maioria ache que se cobre IPVA sobre jatos e barcos se ela não é boa para os grandes negócios? Do que importa a maioria dos trabalhadores contratados se ela não é boa para os grandes empresários? O que importa que a maioria queira se aposentar, queira uma rede forte de amparo social, queira saúde e educação gratuita para todos, queira educação gratuita de qualidade, queira creches públicas se essas coisas não estão de acordo com os interesses dos grandes empresários?

Esse sentimento explica ao tempo a quantidade de pessoas que vai mesmo em Lula em nome de um passado recente em que havia um pouco de representação política (refletida em poder de compra, em comida na mesa e em direito ao lazer) e também os 0 % de pessoas que votam em Bolsonaro mesmo de uma administração que glorifica a pulsão de morte: Bolsonaro tem um discurso anti-institucional que encontra numa adesão porque da população que se sente abandonada e quer, como ele, que tudo se exploda.

Não ter mais nada a perder pode significar não ter mais pelo que esperar. Esse sentimento tem dever lados. Hum, trágico. O outro, de luta. Não ter mais pelo que esperar pode se transformar em não ter mais por que esperar. E nesse instante que nascem como boas revoluções. É de um desejo de pertencimento, de implicação, de compromisso. Um por todos, todos por um é um clichê que, como todos, não nasceu do nada e carrega fundo de verdade.

Para a população pobre no Brasil, falta de compromisso é imperdoável. Estamos falando de pessoas que acordam antes das cinco ainda da manhã, que passam, três, quatro horas todos os dias em transporte público, que trabalham mais de oito horas por dia sete dias por semana e que, assim, não desiste e dá seu jeito de sair. Falta de compromisso é valor aceitável, e fica não menos aceitável nos momentos de maior crise.

As imagens de Jôando enquanto o Corinthians per trazem dia a ton esse oceano de sentimentos. E é sobre isso que precisamos falar. É hora de nos implicarmos na transformação desse país. Ativamente. Entendendo a gravidade do momento. A dor da população. A seriedade de um ano como esse.

Termino com uma oração que considero de uma beleza absurda. Eclesiastes 3.

“Para tudo há uma ocasião certa;
há um tempo certo para cada propósito
debaixo do céu:

Tempo de nascer e tempo de morrer,
ritmo plantar
e tempo de arrancar o que se plantou,

Tempo de matar e tempo de curar,
ritmo para destruir e ritmo para construir,

Tempo para chorar e tempo para rir,
tempo de prantear e tempo de dançar,

Tempo de espalhar pedras
e tempo de ajuntá-las,
tempo de abraçar e tempo de se conter,

Tempo para adquirir e tempo para desistir,
guardar ritmo
e tempo de jogo fora,

Tempo de rasgar e tempo de costurar,
calar tempo e falar tempo,

Tempo de amar e tempo de odiar,
Tempo de lutar e tempo de viver em paz”.

Leave a Reply

Your email address will not be published.