A volta de Mancini ao América-MG não surpreende e é um retrato do nosso futebol – 12/04/2022

A volta de Vágner Mancini ao América de Minas é um daqueles acontecimentos que, por si só, retrata várias facetas de nossa Futebol e até mesmo nossa sociedade. Isso não deve surpreender ninguém. Não estou julgando nenhum dos lados. As coisas são como são.

Mancini foi duramente criticado no ano passado quando mudou uma América que disputava um lugar no Libertadores e fez um grande brasileiro (para reivindicações do clube) por um Guilda praticamente rebaixado.

Mesmo sem Mancini, o América entrou na Libertadores (na fase preliminar), apesar da piora no desempenho. Mesmo com Mancini, o Grêmio caiu, apesar do desempenho melhorado.

Eles concluíram que era melhor começar de novo. Aqui, poucas pessoas pagam pelos erros que cometem. Perdoai uns aos outros como eu vos perdoei. Um homem. Siga o jogo. O passado raramente influencia o presente.

Muito debate tem girado em torno do conceito. Como um técnico pode deixar um bom emprego para ter uma barca com vazamento? “Então eles reclamam.” “Os treinadores fazem o mesmo que os gestores”. “Você não pode confiar em ninguém.” Frases que foram jogadas na época. Enquanto tendemos a defender treinadores e dirigentes atacantes dos golpes bizarros do futebol brasileiro, é normal que a opinião pública fique indignada quando a suposta vítima faz o que os algozes fazem.

Não estou criticando Mancini conceitualmente. Não porque eu concorde com o conceito. Mas porque é assim que funciona, e clubes e treinadores que tentam fazer algo diferente não conseguem sustentá-lo. Devemos mudar as regras para impor relações de trabalho mais saudáveis, é inútil esfaquear a cara.

Só acho que foi uma decisão estúpida de Mancini na época. Era melhor ter ficado na América do que ter ido para o Grêmio. O tamanho dos clubes não é contestado, mas era quase impossível mudar o cenário. Ele teve sorte, surgiu a oportunidade de voltar para a América, então seja feliz.

Critico os treinadores, e até outro dia o Mancini era presidente de uma associação de treinadores, confesso que não sei se ainda o é. Critico porque o horário e as práticas nocivas do futebol brasileiro são ruins para bons treinadores, mas ótimos para maus treinadores. Basta estar “na roda”. Aproveitam-se da incompetência dos dirigentes para aproveitar as cadeiras musicais e ganhar muito dinheiro.

Em outras palavras, eles nunca estavam interessados ​​em mudar. Bastou adotar o discurso vitimista, que todos nós da imprensa compramos. Eles nunca se moveram um centímetro para criar regras que os protegessem – mas isso restringiria um pouco o mercado a eles mesmos.

O pepino é que essa restrição veio com a chegada de estrangeiros. E agora estão sem regras de proteção, sem horas decentes e também sem emprego e sem os salários absolutamente incompatíveis que recebiam. Em cadeiras musicais, eles levaram meio golpe.

Mancini sabe que a América não levaria 5 minutos para demiti-lo se a maré virasse no ano passado, então ele tomou a decisão que tomou. E acertou tanto na leitura que vemos o América fazendo exatamente isso agora, com Marquinhos Santos – que teve que sortear o Mineiro por causa da Libertadores, entrou na Libertadores e, na época do filé mignon, deu um pé na bunda.

O futebol brasileiro continua a ser dirigido por amadores, que decidem com o fígado e de acordo com o humor da opinião pública, sem qualquer responsabilidade financeira. A diferença é que os técnicos brasileiros, anteriormente, estavam em situação de trabalho precária compensada pelos altos valores e pelas inúmeras vagas disponíveis no mercado. A partir de agora, a precariedade persiste e as vagas são raras.

Temos que entrar em uma nova fase. A qualificação é essencial para se manter no mercado e reconquistar posições em outros mercados. Mas, na maioria das vezes, as regras devem, afinal, ser alteradas. E criar uma situação em que os clubes realmente tenham que ficar mais tempo com o mesmo técnico (além do óbvio, agilizando o cronograma). Assim, as escolhas serão feitas com mais cuidado e a competição levará os treinadores à busca da excelência, não à complacência.

Os técnicos são vítimas, mas também vilões em toda essa história. Há tantas coisas erradas no futebol brasileiro que é difícil apontar os culpados. Estão todas. Somos (quase) todos nós.

Mancini teve sorte desta vez. Mas não há muito espaço para que isso aconteça novamente.

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